Mais resultados…

Generic selectors
Somente pesquisas exatas
Busque pelo título
Busque pelo conteúdo
Post Type Selectors

Quase oito anos depois, água para consumo segue contaminada por lama, em Colatina

O Ministério Público Federal (MPF) solicitou à Justiça Federal em Belo Horizonte (MG) a concessão de tutela de urgência para garantir a adoção de medidas que resguardem a saúde da população de Colatina, evitando-se o consumo de água fora dos padrões de potabilidade.

Colatina está localizada na Bacia do Rio Doce, que teve as águas contaminadas por rejeitos após o rompimento da barragem de Fundão, em Maria

Na manifestação enviada à Justiça no último dia 5, o MPF reiterou os pedidos feitos nas alegações finais do processo. Entre eles, a suspensão da captação de água do Rio Doce para distribuição no município, pois ela teria se tornado imprópria para o consumo após o rompimento da barragem de Fundão e a chegada da pluma de rejeitos ao estado capixaba.

Laudos anexados à ação registraram a presença, na água, de mercúrio, arsênio, manganês, chumbo, cádmio, cobre, vanádio e alumínio, em quantidades superiores aos padrões de segurança estabelecidos pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) e pela Portaria 2.914/2011, do Ministério da Saúde.

A petição do Ministério Público destaca trechos da perícia realizada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com o Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), que demonstram a contaminação da água que abastece a cidade de Colatina.

A poluição foi comprovada a partir de elementos associados diretamente ao derramamento de rejeitos, como o aumento expressivo da turbidez da água, a alta concentração de cianeto livre e o volume de chumbo total.

Com base nas amostras colhidas até o ano de 2018, os estudos demonstraram que, embora o nível de alguns parâmetros tenha diminuído com o passar do tempo, a comparação com o período anterior à passagem da pluma apresentou diversos parâmetros aumentados, como alumínio dissolvido, cádmio total, níquel total e turbidez, que não retornaram às condições anteriores.

De acordo com os peritos, os resultados sugerem que parte desses poluentes ficou retida na calha do rio, sendo ressuspendidos em momentos determinados, como no aumento da vazão fluvial.

“Da mesma forma, confirmou-se aumento dos níveis de cobre dissolvido, cor verdadeira, ferro dissolvido, manganês total, níquel total e turbidez no período de agosto/2017 a setembro/2018 com relação ao período anterior à passagem da pluma”, registra o laudo.

Uso do Tanfloc

A manifestação do MPF ressalta que “a conduta da Samarco não somente poluiu de maneira intensa e perene o Rio Doce, como agravou de forma altamente relevante outros impactos já existentes, perpetuando-os”.

Isso porque, segundo o laudo pericial, a empresa forneceu ao Serviço Colatinense de Saneamento, para tratamento e limpeza da água, produtos coagulantes e floculantes, em especial, o Tanfloc SG, que acabou por implicar novo risco à saúde humana.

O Tanfloc SG é um coagulante auxiliar utilizado no tratamento de águas em geral e de efluentes industriais. O uso do produto químico teria sido sugerido e fornecido pela Samarco para municípios afetados pelo desastre.

De acordo com o laudo, nas Estações de Tratamento de Água de Colatina, a dosagem utilizada do Tanfloc não cumpriu o previsto na norma ABNT NBR 15.784/2014, “em quadro de incalculável perigo”.

Segundo os peritos, o produto pode causar perda de peso e neoplasias, sendo classificado pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc, do inglês International Agency for Research on Cancer) como carcinogênico, tumorigênico e teratogênico.

“Tais malefícios são causados pelos resíduos de formaldeído, usado como uns dos reagentes químicos no processo de fabricação do floculante, sendo normal que o processo de reação química não seja completo, deixando resquícios dos reagentes”, assevera o documento.

Os testes apontaram que todas as dosagens testadas do Tanfloc SG foram maiores do que a dosagem máxima recomendada de 10 mg/l. Ainda segundo o laudo pericial, “a utilização do Tanfloc para o tratamento da água no município de Colatina ocorreu completamente a esmo, sem a adoção de quaisquer providências de controle da qualidade da água após o tratamento para consumo humano, o que pode explicar a utilização de dosagens tão elevadas do produto na maior parte do período de aplicação”.
Associações de moradores
Os riscos à saúde humana potencialmente causados pelo uso do Tanfloc SG também vêm sendo discutidos em outra ação civil pública, ajuizada por associações de moradores locais e de produtores rurais e artesão do Espírito Santo, em novembro de 2021.

Os proponentes relatam que, após o desastre, muitos municípios que estavam impossibilitados de captar a água do Rio Doce para consumo humano passaram a ser assediados pela Samarco, que forneceu e recomendou o uso do Tanfloc.
Por isso pleiteiam, entre outros pedidos, que as mineradoras Samarco, Vale e BHP sejam condenadas a arcar solidariamente com todos os ônus, despesas e investimentos necessários para viabilizar que todas as cidades impactadas que fazem a captação de água no Rio Doce passem a ter outra fonte de captação de água pra consumo humano.
Pedem também que as empresas sejam obrigadas a custear e a providenciar, por meio de caminhões-pipa, o abastecimento das cidades na exata proporção do consumo atual médio da população, além de fornecer três litros de água mineral para cada cidadão de tais localidades.

Ao se manifestar nesse processo, o Ministério Público Federal propõe a busca de uma solução consensual para a questão, por meio de audiência marcada especialmente para esse fim.
O procurador da República Carlos Bruno Ferreira da Silva, que acompanha as ações do caso Samarco na 4ª Vara Federal de Belo Horizonte, entende que o espaço mais adequado para a discussão sobre os danos gerados à população colatinense pelo fornecimento de água contaminada é exatamente na ação civil proposta pelas associações locais.

Falta de segurança
Para o MPF, diante de todos os fatos apontados pelos peritos, não foram adotadas medidas suficientes para assegurar a segurança da água consumida pela população de Colatina, não tendo havido adequado monitoramento das substâncias, que apresentam risco toxicológico reconhecido internacionalmente, nem a criação de fontes alternativas de captação ou aprimoramento dos mecanismos de tratamento já existentes.

Além disso, faltou a comunicação de risco transparente e informativa à população sobre as condições da água fornecida, passível de auditagem independente pela comunidade científica.
Diante desse cenário, o Ministério Público Federal pede que a Justiça obrigue o Sanear a interromper a distribuição de água fora dos padrões de potabilidade definidos pelo Conama e pelo Ministério da Saúde.

Requer, ainda, a conclusão e implantação dos projetos de captação alternativa ao Rio Doce, suficientes para o abastecimento do município com água não contaminada bem como a adequação de todas as estações de tratamento a fim de assegurar condições operacionais efetivas e seguras para o cuidado com a água.

Pede-se também que a União e a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) cumpram com sua obrigação de fiscalizar devidamente a qualidade da água e os serviços prestados pelo Sanear em Colatina.
Além disso, a Prefeitura de Colatina, com aporte financeiro da empresa Samarco, deve adotar medidas de acompanhamento da saúde da população, visando a detecção precoce e a prevenção de doenças relacionadas à exposição e ao consumo da água contaminada.
O outro lado

A Renova disse que não comentará o caso devido a tramitação na justiça. A Samarco respondeu que presta os devidos esclarecimentos nos autos do processo. A reportagem também procurou a Vale, BHP, Prefeitura de Colatina, ANA e Advocacia-Geral da União (AGU). O texto será atualizado conforme envio de notas.

Maryhanderson Ramos Ovil.

Comente o que achou:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Veja mais

Posts relacionados:

Pedal, Natureza e Tradição: Santa Maria de Jetibá se prepara para o 2º MTB Pomeranos do Pedal 2025
21 out

Pedal, Natureza e Tradição: Santa Maria de Jetibá se prepara para o 2º MTB Pomeranos do Pedal 2025

Evento promete reunir esporte, cultura e turismo em um circuito desafiador pelas paisagens deslumbrantes de Alto Santa Maria, fortalecendo o espírito comunitário e a promoção da saúde através do ciclismo.

Pedalando Saúde, Turismo e Inclusão
25 set

Pedalando Saúde, Turismo e Inclusão

4° Cicloturismo Santa Teresa 2025 promete movimentar a região com esporte, cultura e integração social Santa Teresa se prepara para receber, no dia 05 de outubro de 2025, mais uma

Todo O Mercado Capixaba ganhou com a reestruturação digital da Hubbo Business que ressurge com Força Total
25 jun

Todo O Mercado Capixaba ganhou com a reestruturação digital da Hubbo Business que ressurge com Força Total

Uma nova era para negócios inteligentes na busca por transformação empreendedora Acesse agora o novo portal hubbo.com.br e descubra como transformar sua visão em realidade com quem entende do jogo.

Educação Financeira nas Escolas: Um Passo Essencial para um Brasil Mais Consciente e Sustentável
25 jun

Educação Financeira nas Escolas: Um Passo Essencial para um Brasil Mais Consciente e Sustentável

Com apoio do setor de seguros e de líderes visionários como Reginaldo Costa, proposta aprovada na Câmara insere o tema nos ensinos fundamental e médio e abre caminho para um

Nova Lei do Balonismo: Tragédia impulsiona proposta por mais segurança nas alturas
23 jun

Nova Lei do Balonismo: Tragédia impulsiona proposta por mais segurança nas alturas

Projeto de lei propõe seguro obrigatório, certificações e regras claras para proteger vidas e profissionalizar o setor de balonismo no Brasil Por Hubbo Mkt – Agência de Publicidade, uma marca

Cuidado desde o primeiro instante: Senado debate fim da carência em planos de saúde para gestantes
20 jun

Cuidado desde o primeiro instante: Senado debate fim da carência em planos de saúde para gestantes

Audiência pública propõe ouvir especialistas e entidades para garantir às futuras mães acesso digno e imediato à saúde privada Conteúdo institucional produzido por Hubbo Mkt — Agência de Publicidade No

Mais populares: