Houve um tempo em que os ensaios clínicos frequentemente ignoravam as mulheres, resultando em medicamentos feitos sob medida apenas para homens. Embora tenha havido melhorias, muitas mulheres mais velhas continuam a receber tratamentos sem uma base científica clara sobre sua eficácia. A médica Stephanie Faubion, diretora do Centro para a Saúde da Mulher na Clínica Mayo, compartilhou com a repórter Judith Graham, do KFF Health News, que muitos medicamentos amplamente prescritos para idosos, como estatinas para controle do colesterol alto, foram originalmente testados em homens, com seus resultados “extrapolados” para mulheres.
“Parte-se do pressuposto que a biologia feminina não importa e que as mulheres antes da menopausa e na pós-menopausa respondem da mesma forma ao medicamento. Isso precisa acabar: os testes têm que levar em conta gênero e idade para sabermos como afetam as pacientes”, enfatizou.
Recentemente, o FDA aprovou o Leqembi para tratar o Alzheimer após relatos de uma redução de 27% no declínio cognitivo. No entanto, um apêndice do estudo publicado no “New England Journal of Medicine” revelou uma disparidade significativa: enquanto 43% dos homens se beneficiaram do medicamento, apenas 12% das mulheres obtiveram sucesso. É importante lembrar que dois terços dos pacientes com Alzheimer são mulheres!
Apesar de enfrentarem mais doenças autoimunes, ansiedade, depressão e desafios para realizar atividades diárias, a resiliência das mulheres é notável: nos EUA, vivem cinco anos a mais que os homens; no Brasil, sete anos a mais. Para garantir o bem-estar dos idosos, precisamos realmente nos preocupar com o sexo feminino. O artigo lista as principais condições que exigem uma nova abordagem.
Doença coronariana:
Problemas cardíacos são mais comuns após a menopausa e são a principal causa de morte entre mulheres. No entanto, o atendimento para dor no peito é mais rápido quando se trata de homens. Martha Gulati, diretora de cardiologia preventiva no Hospital Cedars-Sinai, aponta que mulheres idosas são mais propensas a ter bloqueios em vasos menores (enquanto homens tendem a ter obstruções nas artérias coronárias), o que muitas vezes acaba sendo negligenciado.
Saúde do cérebro:
Existem diversos fatores que impactam a saúde cerebral feminina: desde enfrentar o sexismo até as responsabilidades como cuidadoras e desafios financeiros, especialmente quando são chefes de família. Mulheres também têm maior incidência de doenças que afetam o cérebro, como esclerose múltipla e AVC. Além disso, a diminuição da produção de estrogênio na pós-menopausa, um hormônio protetor do cérebro, também desempenha um papel crucial.
Saúde mental:
Estudos sugerem que a maior vulnerabilidade das mulheres a problemas de ansiedade e depressão pode ser atribuída a mudanças hormonais e ao impacto acumulado do estresse. Paula Rochon, professora de geriatria da Universidade de Toronto, argumenta que mulheres mais velhas enfrentam um duplo preconceito de sexismo e idadeismo, o que pode torná-las “invisíveis” e prejudicar sua saúde mental.
Câncer:
Supriya Gupta Mohile, diretora de pesquisa oncológica geriátrica na Universidade de Rochester, propõe uma mudança no foco do rastreamento de câncer, baseando-se no estado geral de saúde em vez da idade: “Atualmente, fazemos muitos exames em idosas frágeis e não dedicamos a atenção devida às idosas saudáveis”. Ela também enfatiza a necessidade de mais pesquisas sobre câncer de pulmão em mulheres, dada a agressividade dos tratamentos: “Muitas mulheres têm várias condições de saúde simultâneas, e o conjunto dessas condições pode ser mais fatal do que o próprio câncer de mama. Precisamos entender quem pode tolerar os tratamentos”.
