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A Celebração da História da Língua Travesti no Museu da Diversidade Sexual de SP

Novo capítulo se abre com expansão e reabertura do museu, destacando a exposição principal

Em abril de 2022, o Museu da Diversidade Sexual se preparava para celebrar uma década de existência quando foi surpreendido por uma liminar que questionava sua administração pelo Instituto Odeon. Após uma breve interdição, a justiça permitiu sua retomada, e agora, em uma reforma avaliada em 9 milhões de reais, o museu reabre suas portas renovado e expandido, pronto para receber o público novamente.

O espaço, agora com 540 metros quadrados, exibe duas exposições gratuitas, incluindo a principal:

“Pajubá: A Hora e a Vez do Close”. A atmosfera do museu foi revitalizada com um hall de entrada vibrante, com carpete fúcsia reluzente e paredes prateadas reflexivas, criando um contraste marcante com o espaço expositivo, onde estandes simples destacam as obras, artefatos e recortes que contam histórias importantes.

Com curadoria de Amara Moira e Marcelo Campos, a exposição “Pajubá: A Hora e a Vez do Close” é o ponto alto do Museu da Diversidade Sexual, remontando os caminhos da linguagem criada por mulheres trans e travestis durante a Ditadura Militar. Esse código “secreto” foi crucial para a proteção do grupo, especialmente entre aquelas envolvidas na prostituição. A exposição não suaviza os desafios enfrentados, destacando formas de autodefesa, registros da imprensa homofóbica e as feridas ainda abertas da crise da aids nos anos 80. O conjunto exposto celebra figuras históricas como Maria Quitéria e traça uma linha contínua na história brasileira para combater o apagamento dessa narrativa.

A mostra também apresenta obras contemporâneas como o “Condom Couture”, um vestido feito inteiramente de camisinhas vencidas ou danificadas pela artista Adriana Bertini, refletindo os desafios e a criatividade da comunidade LGBTQIA+ atualmente no Brasil.

Ao lado de “Pajubá”, a exposição “Artes Dissidentes”, embora menor em tamanho, oferece um olhar sutil sobre a vida cotidiana da comunidade LGBTQIA+ em São Paulo. O museu não se limita ao espaço físico, mantendo uma presença digital robusta com exposições virtuais e iniciativas como o clube do livro e os “Rolezinhos LGBTQIA+”, que exploram locais significativos para a história da diversidade sexual na cidade.

Em entrevista à VEJA, Carlos Gradim, diretor presidente do Instituto Odeon, destaca a revitalização do Museu da Diversidade Sexual, os planos futuros para a instituição e como o novo capítulo busca alcançar novos públicos:

Quais as expectativas para o futuro do museu no momento?

Carlos Gradim, diretor presidente do Instituto Odeon, compartilha suas expectativas otimistas para o futuro do Museu da Diversidade Sexual:

As expectativas são as melhores possíveis. Nas visitas de imprensa e convidados, tivemos um gostinho do quanto as novas exposições tocam o público de forma afetiva. Nosso desejo sempre foi fazer um museu que pudesse transcender suas paredes físicas e criar diálogo com toda a sociedade. Houve uma adesão significativa de nomes da dramaturgia e do Senado Nacional, destacando a importância da reabertura do museu. A expansão do espaço agora nos possibilita contar uma maior diversidade de narrativas. No caso de ‘Pajubá’, apresentamos uma linha do tempo histórica acompanhada de trabalhos artísticos exclusivos para a exposição. Esperamos que a mostra estimule conversas e promova o respeito à diversidade humana e de gênero.

Como o museu planeja atingir públicos para além da bolha da sigla?

Isso é central ao nosso plano estratégico. Trabalhamos em parceria com a ONG ‘Mães pela Diversidade’, que nos traz um público diversificado, incluindo mulheres que muitas vezes têm filhos que não se identificam com nenhuma identidade convencional. Sempre buscamos colaborações com representantes da sociedade civil que proporcionem espaços de aprendizado. Este é, talvez, nosso maior desafio.

Hoje, a equipe do museu sente maior estabilidade e segurança perante críticas externas?

Não acredito que devemos encarar a diversidade como um ponto de tensão com o resto da sociedade. Considero até preconceituosa essa separação, pois a história LGBT não está dissociada das experiências de pessoas negras e outras minorias. Nesse sentido, a própria exposição é fascinante, já que o pajubá se inspira nas línguas de terreiro, que não utilizavam artigos e, portanto, eram naturalmente neutras. Somos um espaço para a diversidade e nossa missão é acolher a todos que desejem nos conhecer.

Além do pajubá, o museu emprega a linguagem neutra em seus textos. Quão importante é para o equipamento promover essa mudança?

A representação integral da comunidade LGBT+ é fundamental para nós. O pajubá, inicialmente uma linguagem de proteção, evoluiu para se tornar um recurso artístico e estético. A linguagem e a literatura se adaptam conforme nossa compreensão avança. Embora gramáticos possam ter suas divergências, a linguagem neutra é um movimento transformador que reflete mudanças em curso na sociedade. A língua é flexível e mutável, como evidenciado pelas transformações registradas aqui no museu. O uso da linguagem neutra promove diálogos que ajudam os visitantes a compreender suas implicações políticas e sociais. Buscamos mudanças não por meio de violência ou ódio, mas por meio do diálogo e da educação.

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