Para mim, não. A Seleção encontrou sua fórmula sem a Rainha, que ainda será uma grande peça, mesmo de fora.
A eletrizante e inesperada jornada do Brasil rumo à final olímpica do futebol feminino trouxe um debate fervoroso. Suspensa por duas partidas após a expulsão contra a Espanha, Marta não participou dos jogos subsequentes. Curiosamente, sem a Rainha, o Brasil achou seu melhor desempenho, vencendo França e Espanha, e chegou à final após 16 anos.
Acredito que Marta deve iniciar no banco. Contudo, para uma despedida cinematográfica, seria incrível vê-la em campo o tempo todo, brilhando e conquistando a medalha de ouro em Paris. Marta, que é a última remanescente das seleções que ficaram com a prata em 2004 e 2008, quando perdeu para os Estados Unidos nas finais.
Não há dúvida sobre o talento e a importância de Marta. Seis vezes eleita a melhor do mundo, seu valor é inquestionável. No entanto, o time brasileiro evoluiu sem ela. Tornou-se mais competitivo. Com Marta, parecia que a equipe estava presa à necessidade de adaptar-se à sua grande jogadora. Sem ela, o Brasil encontrou mais facilidade em pressionar a saída de bola adversária e explorar a velocidade das atacantes nos contra-ataques.
Na derrota contra as espanholas na fase de grupos, o Brasil foi escalado com cinco zagueiras, quatro meio-campistas (incluindo Marta) e apenas Kerolin no ataque. Com apenas 17% de posse de bola, segundo o Sofascore, a equipe não conseguiu criar chances claras de gol e viu o adversário realizar 28 finalizações contra a excelente Lorena.
Nas quartas de final, enfrentando a França, o técnico Arthur Elias fez alterações estratégicas e optou por um esquema 3-4-2-1. Adriana assumiu a posição de meio-campista pela direita, onde antes jogava Marta. Gabi Portilho e Jheniffer apoiaram Gabi Nunes no ataque.
A posse de bola subiu para 42%, o Brasil teve 11 finalizações e gerou quatro chances claras. Além disso, foram realizados 22 desarmes.
Na revanche contra as campeãs mundiais espanholas, Arthur Elias escalou Ludmila e Yasmin como meio-campistas abertas pelos flancos, posicionou Jheniffer mais avançada e deixou Gabi Portilho na linha de frente. Com essa configuração, o Brasil conseguiu recuperar a bola das espanholas, que têm dificuldade sem posse, e explorar a lentidão de suas defensoras. A posse de bola foi de 24%, mas, mais crucialmente, foram realizados 32 desarmes, mostrando a competitividade que estava ausente anteriormente.
Aos 38 anos, Marta não pode ser exigida com a mesma intensidade de Gabi Portilho, Ludmila, Gabi Nunes e Jheniffer. Seria um desperdício forçá-la a perseguir adversárias. A Rainha precisa preservar sua saúde para fazer o que faz de melhor: criar jogadas. No entanto, o time brasileiro tem sido mais reativo do que criativo.
Arthur Elias é um estrategista talentoso, capaz de encontrar soluções ideais. Muitas decisões são complexas. O Brasil pode jogar sem Marta e sofrer, perdendo o ouro. Ou Marta pode iniciar o jogo e brilhar, sendo a estrela em campo.
Não estou questionando o brilhante currículo de Marta.
Torneios curtos, como a Olimpíada, muitas vezes exigem que se ouça o que o jogo revela. O que o treinador brasileiro planejou inicialmente não funcionou. No decorrer do torneio, surgiram alternativas que se mostraram eficazes. A lógica sugere que não se deve alterar um time que está vencendo. Mas como deixar a maior jogadora da história no banco em uma final?
A decisão está nas mãos de Arthur Elias. Que ele escolha o caminho certo, e eu celebrarei qualquer erro em minha opinião.
