Em uma pesquisa com camundongos, os cientistas perceberam que, depois de um jejum, a multiplicação de células-tronco intestinais aumenta. Mas, dependendo do que você come e da sua genética, isso pode aumentar o risco de tumores.
O jejum intermitente e a restrição calórica têm sido a sensação quando o assunto é saúde e longevidade. Mas, segurando as ondas da novidade, um estudo fresquinho publicado na revista Nature traz um alerta: dependendo do que você coloca na mesa logo depois de jejuar e da sua predisposição genética, essa prática pode, sim, elevar o risco de tumores no intestino!
Realizado por um time de gênios do Massachusetts Institute of Technology (MIT), o estudo é o primeiro a olhar com atenção não só para o que rola durante o jejum, mas também para o que acontece depois, quando a gente volta a comer. E adivinha? Nesse momento mágico de realimentação, as células-tronco intestinais entram em modo turbo, multiplicando-se como se não houvesse amanhã! Isso pode ser super benéfico, mas também traz alguns riscos, incluindo uma maior chance de tumores.
“Então, o jejum intermitente causa câncer? Calma lá! Não é bem assim. Vários estudos já mostraram que essa prática pode ser até uma aliada na prevenção de doenças. O que descobrimos é que, por conta do aumento das células-tronco, dependendo da genética e do que você decide comer após o jejum, há um risco maior de desenvolvimento de tumores”, explica Renan Oliveira Corrêa, um dos autores do artigo e que fez esse trabalho incrível durante seu estágio no MIT, com o apoio da FAPESP.
Os resultados deixam claro: se você tem um histórico de câncer de intestino na família, talvez seja melhor evitar o jejum intermitente. E não para por aí! O que você come depois de jejuar também merece atenção. Alimentos tipo “vilões” – como carnes processadas, açúcar em excesso e bebidas alcoólicas – podem ser verdadeiros inimigos nesse momento delicado de multiplicação celular.
“Embora a pesquisa tenha sido feita com camundongos em condições bem controladas, é uma boa ideia ter mais cuidado com o jejum intermitente”, reforça Corrêa, lembrando que precisamos de mais estudos para entender melhor essa relação.
Renovação em Alta: O Segredo do Intestino!
Como o pesquisador explica, o epitélio – aquele tecido que reveste o intestino por dentro – é um verdadeiro campeão em renovação! Nos humanos, ele se renova completamente em apenas três a cinco dias. E tudo isso acontece de forma natural, com a ajuda das células-tronco, que se multiplicam e se transformam em todos os tipos de células que o epitélio precisa.
Nos últimos tempos, os cientistas descobriram que essa proliferação das células-tronco pode ser influenciada por uma série de fatores. Em um estudo anterior, o time do Corrêa lá no Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp) mostrou que a alimentação – mais especificamente, o consumo de fibras solúveis – dá um gás na renovação do epitélio (você pode conferir mais detalhes em: agencia.fapesp.br/41777).
“Além do que colocamos no prato, agora conseguimos provar que a frequência com que comemos também pode afetar essa proliferação, especialmente no período após o jejum”, comenta Marco Aurélio Ramirez Vinolo, professor do IB-Unicamp e coautor dos dois estudos.
“Isso acontece porque as células se adaptam ao jejum e, quando os animais são alimentados novamente, elas respondem com uma proliferação intensa! E isso é ótimo, porque ajuda o epitélio a se manter e se recuperar rapidinho de danos ou estresse. Mas, aqui vai um alerta: se ocorrerem mutações cancerígenas nesse exato momento de maior proliferação, o risco de desenvolvimento de tumores pode aumentar”, destaca Vinolo, que foi o mentor de Corrêa durante seu doutorado.
No estudo que saiu recentemente na Nature, os pesquisadores deram uma olhada na proliferação das células-tronco em três situações diferentes: durante o jejum, quando os bichinhos eram alimentados após o jejum e enquanto seguiam uma dieta normal sem pausas longas. E o que eles descobriram? As células-tronco do epitélio bombam em proliferação na hora da realimentação, especialmente 24 horas depois do jejum!
“Investigando o que rola por trás disso, descobrimos que essa explosão de células-tronco acontece por causa da ativação de uma via celular chamada mTORC – que é super importante para o metabolismo celular e a produção de proteínas. Em termos simples, quando essa via é ativada, a produção de proteínas aumenta por meio do metabolismo das poliaminas, que são essenciais para a divisão celular. Isso resulta nessa maior proliferação das células-tronco logo após a realimentação”, explica Corrêa.

No estudo, quando os pesquisadores ativaram mutações genéticas logo após o jejum, os camundongos mostraram uma probabilidade bem maior de desenvolver tumores intestinais em estágio inicial.
“Isso é um alerta para não deixar a sorte agir sozinha! O jejum intermitente é uma estratégia poderosa, pois realmente corta as calorias. Algumas pesquisas já indicaram que, além de ajudar a perder peso, essa prática pode diminuir o risco de diabetes e ainda trazer melhorias para o sistema imunológico, protegendo a galera contra alguns tipos de câncer. Mas, atenção! Descobrimos que o jejum intermitente não é para todo mundo. O momento da realimentação é quando a proliferação celular está a mil, e isso pode deixar as células mais vulneráveis à formação de tumores”, destaca Corrêa.
Se você ficou curioso para saber mais, pode conferir o artigo Short-term post-fast refeeding enhances intestinal stemness via polyamines em: www.nature.com/articles/s41586-024-07840-z.
