Automutilação é um grito por socorro, surgindo de quem tá tentando processar um estresse que não dá pra aguentar
Megan desfilava pelos corredores da sua escola no subúrbio de Houston, com a sensação de que todo mundo estava olhando. Era a primeira vez que ela aparecia na escola com aqueles hematomas no rosto, resultado do abuso do pai, um alcoólatra que não sabia a hora de parar.
“Eu tava frustrada, indignada e, claro, com uma vergonha danada,” relembra Megan, agora com 35 anos, que prefere manter o sobrenome no sigilo por conta da delicadeza do assunto. Essa lembrança é de mais de 20 anos atrás, mas parece que foi ontem! “E, gente, não tinha como escapar: tinha que voltar pra casa do meu pai.”
Depois de um dia cheio de tensão na escola, Megan chegou em casa e, sozinha, resolveu encarar a situação. Pegou uma faca de cozinha, se trancou no banheiro e se machucou no antebraço. O que levou essa decisão? Ah, ela tinha acabado de descobrir sobre automutilação, depois de perguntar a uma amiga sobre as muitas bandagens que ela usava.
“Sempre rolava depois das visitas ao meu pai,” conta Megan. “Voltava pra casa da minha mãe com uma frustração insuportável e não sabia como lidar com aquilo. Na casa do meu pai, tudo era descontrole. Eu não tinha controle algum! Então, me machucar virou uma forma de ter um pouco de controle na minha vida.”
Nos anos seguintes, a história de Megan não ficou mais fácil. O pai dela continuou a abusar, e, em um ato de desespero, ela se machucava pra conseguir lidar com isso. Era como se a dor física fosse uma forma de desviar a atenção da dor emocional, um jeito de dar um foco na agonia do corpo ao invés da alma. Aos 15 anos, após ser expulsa da equipe de líderes de torcida, a situação explodiu: ela correu para o banheiro com uma faca na mão. Mas a mãe de Megan, que estava atenta, percebeu a tensão e tentou arrombar a porta, “com o coração na mão, morrendo de medo de que eu estivesse pensando em algo muito sério”.
Poucos dias depois desse momento tenso, Megan decidiu que era hora de buscar ajuda e começou a terapia para enfrentar seu trauma e descobrir novas formas de processar a dor. Sua mãe, preocupada com o bem-estar da filha, tinha medo de que Megan estivesse em um caminho perigoso, mas a jovem insistiu: “Não tem nada a ver com querer acabar com tudo, mãe! A automutilação era só uma tentativa desesperada de segurar toda essa raiva, tristeza, culpa e vergonha que pareciam um furacão prestes a me engolir.”
O que é automutilação?
Automutilação é um termo que geralmente faz a galera pensar em cortes ou arranhões que deixam o corpo sangrando, mas não para por aí! Também inclui queimaduras, hematomas e até mesmo fraturas intencionais, como se a pessoa quisesse quebrar o próprio osso. É isso que nos conta Janis Whitlock, a mente brilhante por trás do Programa de Pesquisa sobre Automutilação e Recuperação na Universidade Cornell, lá em Nova York. Os especialistas costumam chamar esse comportamento de automutilação não suicida, ou simplesmente AMNS.
Em 2019, os números foram alarmantes: 363.000 visitas ao pronto-socorro nos Estados Unidos devido a casos de automutilação, segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças. Mas, em 2020, a situação mudou! A galera começou a evitar os hospitais por medo de sobrecarregar os profissionais de saúde ou pegar Covid-19, e as visitas caíram 48,5%.
Porém, em 2021, a realidade bateu na porta com 660.000 visitas ao pronto-socorro — um aumento de quase 253% em relação ao ano anterior e cerca de 82% a mais que em 2019. Esses altos números estão de acordo com o que foi observado antes da pandemia, quando as taxas de problemas de saúde mental já estavam subindo. E, adivinha? A proximidade forçada com a família durante os lockdowns fez com que os pais ficassem mais atentos aos sinais de automutilação, o que, provavelmente, resultou em mais idas ao pronto-socorro.
Dentro da mente daqueles que se automutilam
A grande maioria dos especialistas bate na mesma tecla: a automutilação é um pedido de socorro, uma forma de alguém tentar lidar com o estresse e acabar se perdendo no caminho. Essa é a visão de Jeremy Jamieson, professor e cabeça do departamento de psicologia na Universidade de Rochester, em Nova York.
Megan explica que, quando a pessoa se sente desconectada do mundo, a automutilação pode parecer uma maneira de tentar se reconectar. E se alguém está se sentindo menos que humano — aquela sensação estranha chamada despersonalização — pode se machucar na esperança de redescobrir sua humanidade. Além disso, a automutilação muitas vezes surge como uma forma de autopunição para quem se sente culpado ou envergonhado, levando a pessoa a acreditar que merece sentir dor física.
Mas não para por aí! Vibh Forsythe Cox, a diretora da Clínica de Terapia Comportamental Dialética Marsha M. Linehan da Universidade de Washington, traz à tona uma explicação neurofisiológica super interessante para esse comportamento. Tudo se liga ao sistema opioide endógeno do corpo, um sistema neuroquímico que tem um papel fundamental na modulação da dor, nas recompensas, nas respostas ao estresse e muito mais.
Quando o corpo sente que tá sofrendo, esse sistema começa a trabalhar: as endorfinas entram em cena como verdadeiros analgésicos, ajudando o corpo a escapar de qualquer perigo. A automutilação, então, acaba acionando a mesma resposta, explica Cox.
“Os dados indicam que há uma conexão neurológica entre a percepção da dor física e a dor emocional – onde um pico e uma queda em um podem afetar o outro”, complementa Whitlock.
Os perigos da automutilação
Quando as pessoas se machucam, o risco vai muito além do que elas imaginam! Elas podem acabar causando problemas sérios, como danos irreparáveis ou infecções que podem levar até à morte, alerta Whitlock.
E tem mais: embora a automutilação não seja exatamente um grito por suicídio, estudos mostram que, às vezes, ela pode ser um prenúncio. Em um estudo de 2017, a taxa de suicídio entre adultos que se automutilaram foi impressionantes 37 vezes maior do que a média da população geral dos Estados Unidos. E nas pesquisas da própria Whitlock, a situação é ainda mais alarmante: 65% dos adolescentes que se mutilam têm uma probabilidade alta de também tentarem suicídio em algum momento.
“Só o ato de se envolver em automutilação já reduz a inibição para comportamentos suicidas se a pessoa chegar a esse ponto,” explica Whitlock, que é conselheira sênior da JED Foundation, uma organização de prevenção do suicídio e promoção da saúde mental em Boston. “Quando alguém já ‘praticou’ ferir o corpo repetidamente, fica mais fácil ferir o corpo com a intenção de acabar com tudo.”
Terapias eficazes para automutilação
A automutilação, assim como muitos desafios relacionados à saúde mental, não é algo que se resolve da noite para o dia. Os especialistas afirmam que quem se automutila normalmente não consegue parar até estar realmente pronto para isso. Essa prontidão geralmente chega quando a pessoa aprende novas habilidades de enfrentamento e encontra motivos que a inspirem a viver.
Um dos tratamentos mais eficazes é a terapia comportamental dialética, ou TCD. Essa abordagem, que às vezes rola em grupos, foi criada para ajudar as pessoas a desenvolverem habilidades de regulação emocional — fundamentais para lidar com a dor emocional de forma saudável, em vez de cair em hábitos autodestrutivos.
Mas vale lembrar: essa reprogramação do cérebro, para que ele reaja e responda de um jeito diferente, não acontece da noite para o dia. O processo pode levar um ano ou mais, como nos conta Cox.
Mas os resultados podem ser realmente surpreendentes! Um estudo de 2018 analisou os efeitos da TCD em comparação com a terapia de apoio, tanto individual quanto em grupo, nas taxas de tentativas de suicídio e automutilação entre 173 adolescentes que já haviam tentado suicídio pelo menos uma vez e apresentavam três ou mais critérios para transtorno de personalidade borderline (o motivo pelo qual a TCD foi criada).
Após seis meses, cerca de 57% dos participantes que fizeram TCD conseguiram parar de se mutilar, enquanto apenas 40% da turma que fez terapia de apoio teve o mesmo sucesso. E mais: mais de 90% dos participantes da TCD não tentaram suicídio após o tratamento, contra quase 79% do outro grupo. Um verdadeiro divisor de águas!
Outro estudo, realizado em 2021 na Noruega, mostrou que cerca de 93% dos adultos que participaram da TCD conseguiram parar de se automutilar no primeiro ano. E, em um estudo anterior de 2015, que avaliou os efeitos de várias intervenções de TCD em 99 mulheres com transtorno de personalidade borderline que já haviam tentado suicídio, todos os participantes relataram uma redução na frequência de automutilação e encontraram motivos para viver após um ano de tratamento.
Conselhos para superar a automutilação
Se você está enfrentando a batalha contra a automutilação, a primeira dica é buscar um profissional de saúde mental — você pode encontrá-lo por meio do seu médico, do seu seguro ou até mesmo de linhas de ajuda de crise, como sugere Whitlock.
Outra sacada valiosa é tentar identificar seus gatilhos e sinais de alerta. Que tal anotar tudo isso? Whitlock sugere manter um diário de humor para ajudar a reconhecer padrões, permitindo que você intervenha mais cedo com habilidades de enfrentamento saudáveis, antes que os impulsos se tornem uma avalanche.
Algumas técnicas de enfrentamento que podem ser super úteis incluem a prática da atenção plena. Foque nos seus cinco sentidos para permanecer presente e enfrentar emoções intensas ou experimente respirar fundo. E que tal criar uma “caixa de habilidades de enfrentamento”? Encha-a com itens como bolinhas anti-stress, livros de colorir ou fotos de pessoas queridas. Esses pequenos tesouros podem trazer um grande conforto!
E, quando o impulso de se machucar aparecer, faça um pacto com você mesmo: espere 15 minutinhos antes de agir. Use esse tempo para explorar estratégias alternativas de enfrentamento. Com o tempo, a intensidade desse impulso tende a diminuir.
Por último, lembre-se de ser gentil consigo mesmo. Em vez de se pressionar com a ideia de “nunca mais”, que tal focar em aumentar o tempo entre os incidentes? Celebre cada passo do progresso e trate os contratempos com carinho.
Como apoiar outra pessoa
Se você está na missão de ajudar uma criança ou um adulto que está se automutilando, não caia na tentação de correr pela casa removendo todos os objetos pontiagudos, avisa Whitlock.
É claro que é importante usar o bom senso e garantir que alguém não tenha seu “kit de automutilação” à mão no quarto, mas a restrição total pode gerar uma luta de poder entre você e a pessoa que se machuca — e isso pode tirar de você a chance de realmente atender à necessidade dessa pessoa de conexão e apoio, que é o que vai ao fundo do comportamento autodestrutivo a longo prazo. Quem está desesperado pode acabar se machucando de qualquer forma.
Essas questões mais profundas ficam ofuscadas e, muitas vezes, esmagadas quando surgem essas disputas de poder, e a pessoa começa a se sentir punida, diz Whitlock.
“Adotar uma abordagem colaborativa sempre que possível é uma das melhores opções”, acrescenta Whitlock, autora de Healing Self-Injury: A Compassionate Guide for Parents and Other Loved Ones.
É super importante validar as emoções intensas do seu ente querido, em vez de criticar, e ao mesmo tempo enfatizar que há maneiras mais seguras de lidar com essa dor emocional, explica a Dra. Michele Berk, professora associada de psiquiatria e ciências do comportamento da Universidade de Stanford, na Califórnia.
Evite perguntas como “Por que você fez isso?”. Segundo o psiquiatra australiano Dr. Benjamin Veness, essa questão pode aumentar a vergonha da pessoa e fazê-la se sentir ainda pior. Ao invés disso, tente fazer perguntas isentas de julgamento sobre o estado mental dela e sobre quando a automutilação aconteceu. Essa abordagem é muito mais eficaz!
Garantir que seus entes queridos, especialmente as crianças, vejam você como alguém solidário e acolhedor pode ser um passo crucial para que eles se sintam à vontade para compartilhar se estão em risco de se automutilar, complementa Berk.
E não tenha medo de ser honesto sobre sua confusão, medo ou preocupação. Buscar apoio profissional para si mesmo é fundamental, pois isso te ajuda a trabalhar esses sentimentos em vez de canalizá-los em forma de raiva em relação àquela pessoa querida, recomenda Whitlock.
Vida após a automutilação
Embora a jornada para deixar a automutilação para trás possa parecer um túnel longo e desafiador, acredite: há uma luz brilhante lá no final!
Muitas famílias relataram que, embora não desejassem essa experiência a ninguém, ela trouxe a oportunidade de aprender e crescer juntos. Superar os desafios de comunicação e estabelecer conexões autênticas pode ter sido a chave para entender melhor as questões que levaram à automutilação em primeiro lugar, conta Whitlock.
Esse é exatamente o caso de Megan. A última vez que sua mãe a pegou se mutilando foi também o momento em que ela decidiu mudar. Uma dica valiosa do terapeuta dela foi começar a escrever em um diário com uma caneta de tinta vermelha, e isso fez toda a diferença! Em vez de liberar sua dor através do sangue, ela agora expressa suas emoções nas páginas, trocando a dor física por uma liberação simbólica.
Hoje, Megan comanda uma empresa de sucesso em Las Vegas e brilha como influenciadora de moda nas redes sociais. O impulso de se automutilar não faz mais parte da sua vida. Ela aprendeu novas maneiras de lidar com a dor que não envolvem se machucar.
Whitlock observa que muitas vezes quem se automutila possui uma percepção e sensibilidade incríveis, quase como superpoderes! Ela sempre faz questão de lembrar que o desejo de se sentir melhor e encontrar estabilidade é algo positivo. “Essas pessoas só precisam de um pouco mais de apoio para entender o que está acontecendo e aprender a usar essas habilidades que já têm”, completa.

Respostas de 2
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