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Gordura na barriga pode estar ligada ao Alzheimer, aponta estudo

Estudo revela que o aumento da gordura visceral tá associado à diminuição do centro de memória do cérebro e ao surgimento dos primeiros sinais da doença já nos 40 anos

Quando a barriga de alguém começa a crescer, o centro de memória do cérebro começa a diminuir, e aí aparecem os tais marcadores do Alzheimer, como beta amiloide e tau — tudo isso rolando nos 40 e 50 anos, bem antes de qualquer sinal de que o cérebro tá perdendo o pique, de acordo com uma pesquisa fresquinha apresentada na última segunda (2), na conferência da Sociedade de Radiologia da América do Norte.

Essas placas de beta amiloide e os emaranhados tau são tipo os primeiros alertas de que o cérebro pode estar indo naquela direção do Alzheimer. As placas amiloides são as primeiras a aparecer, e os emaranhados tau vêm logo depois, conforme a doença vai se espalhando.

“O lance é: quanto mais amiloide ou tau você tem no cérebro, mais doente ele fica”, explica Cyrus Raji, autor principal do estudo e professor da Universidade Washington em St. Louis.

“Uma forma de ver um cérebro mais doente é notar que o fluxo sanguíneo diminui”, continua Raji. “A gente também observa a atrofia cerebral, ou seja, o desgaste da matéria cinzenta, numa parte do centro de memória do cérebro chamada hipocampo.”

Menos fluxo sanguíneo nesse centro de memória pode causar encolhimento, outro sinal importante do Alzheimer, diz Richard Isaacson, neurologista e diretor de pesquisa do Instituto de Doenças Neurodegenerativas na Flórida, que não fez parte dessa pesquisa, mas complementa: “Isso é um grande alerta”.

“Como o estudo conseguiu encontrar essas conexões décadas antes do esperado, com o declínio cognitivo e o diagnóstico de Alzheimer, focar na redução da gordura abdominal pode ser uma das nossas armas mais fortes para combater essa doença tão devastadora”, afirma Isaacson por e-mail.

A obesidade já é uma verdadeira epidemia global, alerta a Organização Mundial da Saúde (OMS), que estima que, em 10 anos, mais da metade da população mundial vai estar com sobrepeso ou obesidade. Nos Estados Unidos, a previsão é de que até 2050 quase 260 milhões de americanos estejam na mesma situação, a menos que o pessoal que toma as decisões entre na luta agora.

“De forma bem conservadora, a obesidade como fator de risco pra demência afeta pelo menos 1% dos adultos americanos, o que significa que mais de 2 milhões de pessoas poderiam desenvolver Alzheimer por causa da obesidade”, explica Raji.

“É um problemão de saúde pública”, diz Raji. “Estamos tentando entender como a obesidade na meia-idade, lá pelos 40 e 50 anos, pode ser um fator de risco para o Alzheimer, que normalmente não dá as caras com sintomas até lá pelos 60, 70 ou até 80 anos.”

A gordura visceral é a chave

Em um estudo piloto de Raji e sua equipe, divulgado em novembro de 2023, foi descoberto que um tipo específico de gordura abdominal profunda, chamada gordura visceral, tá diretamente ligada à inflamação e ao acúmulo de amiloide nos cérebros de 32 homens e mulheres na faixa dos 40 e 50 anos. Nessa etapa da pesquisa, a presença de tau ainda não foi confirmada.

A gordura visceral é uma parente bem diferente da gordura subcutânea que encontramos pelo corpo. Ela se localiza em torno dos órgãos principais e é muito mais perigosa, enquanto a gordura subcutânea normalmente representa cerca de 90% da gordura total do corpo, segundo a Cleveland Clinic.

“A maior parte do índice de massa corporal (IMC) de uma pessoa está associada à gordura subcutânea, e não à gordura visceral”, explica Raji. “Então, o que fizemos foi medir a gordura visceral com ressonância magnética abdominal, e ainda temos um software super especial que calcula o volume exato dessa gordura visceral.”

O estudo também usou tomografia por emissão de pósitrons (PET) de amiloide, que é tipo a referência padrão quando o assunto é detectar amiloide e tau nos cérebros dos participantes. E, claro, também rolou a ressonância magnética (RM) para medir como a gordura visceral se acumula conforme a cintura vai aumentando.

“Quanto mais gordura visceral uma pessoa tem, mais inflamação rola no corpo, e isso é, de fato, muito pior do que a inflamação que a gordura subcutânea causa”, explica Raji.

A gordura visceral tem um fluxo sanguíneo muito maior, já que fica ali, bem perto dos órgãos, e é bem mais ativa hormonalmente do que a gordura subcutânea, segundo Raji.

“Olha só, a gente analisou a resistência à insulina, medindo os níveis de insulina no sangue em jejum e fazendo testes de tolerância à glicose, e a gente descobriu que as pessoas com maior quantidade de gordura visceral tinham níveis de insulina super elevados”, conta. “Ou seja, a gordura visceral é a mais metabolicamente estranha e a principal causadora de diabetes.”

O estudo também encontrou uma conexão entre a gordura abdominal profunda e a atrofia cerebral, ou seja, o desgaste da matéria cinzenta, em uma parte do centro de memória do cérebro chamada hipocampo, explica Raji. E essa atrofia cerebral? Também é um biomarcador chave do Alzheimer.

Emaranhados de tau identificados pela primeira vez

O estudo seguiu em frente, adicionando mais 48 participantes, totalizando 80 no total. A média de idade era de 49 anos, com um IMC médio de 32 — o que já coloca essas pessoas no quadro de obesidade, de acordo com a definição médica. As últimas atualizações sobre os achados foram apresentadas em resumos na conferência da Sociedade de Radiologia da América do Norte de 2024, na segunda-feira (2), segundo Raji.

“O grande achado é que conseguimos mostrar, pela primeira vez, que maiores quantidades de gordura visceral ou oculta estão relacionadas a níveis anormalmente altos de proteínas tau, em pessoas que estão até 20 anos antes de desenvolverem os primeiros sintomas de Alzheimer”, afirma Raji. “Antes, só tínhamos encontrado uma ligação entre gordura visceral e amiloide.”

As tomografias PET mostraram que, conforme os níveis de gordura visceral subiam, os níveis de amiloide e tau também aumentavam, conforme apontou a pesquisa mais recente.

“Este trabalho tem um impacto enorme e uma relevância clínica gigante para os 47 milhões de americanos — e para centenas de milhões ao redor do mundo — que têm sinais iniciais de Alzheimer começando de forma silenciosa no cérebro, mas ainda não manifestaram sintomas”, afirma Isaacson.

Maneiras de combater a gordura visceral

Existem formas espertas de diminuir a gordura abdominal que podem até reverter esses processos, afirmou Isaacson. A chave é não focar só no peso, mas também na composição corporal.

“Você pode medir isso facilmente em casa com uma balança biométrica ou, ainda melhor, fazer uma varredura DEXA anualmente com a orientação de um profissional de saúde. Essa varredura é também super usada pra monitorar a densidade óssea conforme a gente vai envelhecendo”, explica.

O exercício é, claro, fundamental, mas Isaacson sugere uma abordagem mais inteligente: “Não precisa malhar de forma mais intensa, mas de forma mais estratégica.”

“Para ativar de forma eficiente o modo ‘queima de gordura’ e perder gordura corporal ao longo do tempo, minha dica é fazer uma caminhada rápida e constante, aumentando gradualmente até pelo menos 45-60 minutos, duas a três vezes por semana”, diz.

Você deve seguir o que os especialistas chamam de “treinamento Zona 2”, que é super fácil de monitorar – basta conseguir manter uma conversa durante o exercício, mas só o suficiente, diz Isaacson.

“Caminhar rápido numa esteira com uma leve inclinação, ou até dar aquele rolê com um colete de peso, são formas de entrar na zona de queima de gordura de maneira mais rápida e eficiente”, explica. “E não podemos esquecer da importância de desenvolver massa muscular – quanto mais músculo, mais rápido o metabolismo, e mais gordura você vai queimar durante o dia.”

Se sua massa muscular não for lá essas coisas, comece a fazer treinamento de força pelo menos 30 minutos, duas vezes por semana ou mais. E, claro, não se esqueça de consumir proteína suficiente ao longo do dia, acrescenta o neurologista.

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