Estudo desmascara promessas do Neuralink: visão não é tão avançada
Elon Musk, o magnata por trás da Neuralink, divulgou que o implante Blindsight restauraria a visão e até superaria a capacidade visual humana. No entanto, um estudo recente na Scientific Reports coloca a alegação em cheque, revelando que o implante não entrega o que promete.
Em uma postagem no X (anteriormente conhecido como Twitter), Musk anunciou que o Blindsight está em fase de testes em macacos. Ele afirmou que, embora a resolução inicial seja modesta, o dispositivo poderia eventualmente superar a visão humana. Contudo, os pesquisadores refutam essas afirmações, considerando-as utópicas e fundamentadas em premissas falhas.
I should mention that the Blindsight implant is already working in monkeys.
— Elon Musk (@elonmusk) March 21, 2024
Resolution will be low at first, like early Nintendo graphics, but ultimately may exceed normal human vision.
(Also, no monkey has died or been seriously injured by a Neuralink device!)
O chip da Neuralink, projetado para restaurar a visão com uma qualidade superior à da visão humana, é um implante cerebral com milhões de minúsculos eletrodos conectados ao córtex visual.
Após realizar várias simulações com a mesma abordagem, os cientistas concluíram que o Blindsight não pode alcançar a qualidade anunciada por Musk. O estudo foi conduzido pela Universidade de Washington (UW).
“Engenheiros frequentemente veem os eletrodos como se fossem pixels. Mas a biologia não funciona assim. Nossas simulações, baseadas em um modelo simples do sistema visual, oferecem uma perspectiva sobre o funcionamento real desses implantes. Essas simulações diferem significativamente da noção intuitiva de pixels em uma tela de computador”, afirmou Ione Fine, professora de psicologia da UW e principal autora do estudo.
Implante Realmente Pode Restaura Visão?
Cientistas desenvolveram um modelo computacional que simulou diversos estudos sobre o córtex visual, revelando que a restauração da visão prometida pode ser muito menos impressionante. Fine esclarece que o cérebro não processa imagens em pixels como as telas, então a conexão de um eletrodo não equivale à criação de um pixel.
O modelo utilizou dados de experimentos com animais e humanos para criar diferentes simulações virtuais, demonstrando a estimulação elétrica dos eletrodos no córtex visual.
Por exemplo, uma simulação gerou uma imagem com 45 mil pixels, resultando em alta definição; no entanto, ao simular 45 mil eletrodos implantados no córtex visual de um ser humano, a imagem ficou completamente desfocada.

À esquerda, é mostrado o resultado de uma imagem com 45 mil pixels; à direita, está a mesma imagem na simulação de 45 mil eletrodos conectados a um córtex visual. (Crédito: Ione Fine / Universidade de Washington)
Ao contrário dos pixels, o córtex visual do cérebro representa imagens através de milhares de neurônios. Conectar milhares de eletrodos ao cérebro não faz diferença se não houver uma modificação na forma como os neurônios representam a informação na área conhecida como campo receptivo.
Os cientistas reconhecem que a Neuralink está promovendo avanços significativos e que o Blindsight pode ser revolucionário ao fornecer uma visão turva para quem está completamente cego, mas ainda está longe de oferecer uma visão plena.
Para restaurar e oferecer uma visão perfeita, seria necessário reprogramar o código neural em milhares de células. Atualmente, os cientistas ainda não sabem como identificar o código neural correto em pessoas com deficiência visual. Sem essa reprogramação, tanto o implante da Neuralink quanto os de outras empresas continuarão proporcionando uma visão insatisfatória.
“Muitas pessoas perdem a visão na idade avançada. Aos 70 anos, aprender novas habilidades para viver bem como um indivíduo cego é extremamente desafiador. As taxas de depressão são elevadas e o desespero para recuperar a visão é real. A cegueira não torna as pessoas inerentemente vulneráveis, mas a perda tardia da visão pode criar vulnerabilidades. Quando Elon Musk afirma que ‘será melhor que a visão humana’, isso é uma promessa perigosa”, ressalta Fine.
